Uma das grandes alegrias, rever os amigos!

Entre as melhores coisas de um velejador, certamente está presente um grande número de amigos. Encontrar e conhecer pessoas, saber sobre suas viagens e aventuras é realmente fantástico. Nossos amigos desta temporada saíram e nós ficamos por aqui um pouco tristes… mas tivemos a boa surpresa de receber amigos da temporada passada que conhecemos quando estávamos na Itália.
JJ e Sara, ele inglês e ela italiana,  saíram da Itália e estavam em Lampedusa, uma ilha no Mediterrâneo, próxima da Tunísia e resolveram vir passar uma semana aqui. Passamos muito tempo juntos, desfrutando a agradável companhia deles.
Fomos à Sousse, cidade maior e próxima daqui e pela primeira vez, desde março, usamos o transporte público…. Pois até então não havíamos saído mais para viagens em função do Corona vírus.
No caminho, direção norte, passamos pelo aeroporto e por diversas lagoas de produção de sal em diferentes estágios. Nelas sempre há Flamingos e a medida que forem se alimentando nas lagoas de sal sua plumagem ganhará a cor rosa, característica dos flamingos. No inverno passado vimos muitos é bem coloridos, mas os de agora ainda estão brancos. Monastir é produtora de sal assim como outras cidades da Tunísia. A materia-prima das Salinas é o mar, que contém apenas cerca de 3% de cloreto de sódio (NaCl); O trabalho a ser feito em um lago salgado consiste em evaporar grandes volumes para concentrar essa água do mar pela ação exclusiva do sol e do vento. É um longo trabalho e os salineiros cuidam de todo o processo, desde que a água do mar é bombeada para dentro dos lagos, onde percorrerá de 50 a 100 km e levando mais de 6 meses para se concentrar antes de se cristalizar em superfícies chamadas tábuas de sal. Então chega a época da colheita e como na agricultura, uma vez por ano, geralmente no outono-inverno, os salineiros recolhem esse sal que pacientemente fizeram crescer em suas bacias de cristalização, depois falando muito resumidamente…o lavam e o armazenam para distribuição. A paisagem chama a atenção pelas diferentes cores das lagoas e pela presença dos flamingos que agora já  se reproduziram e há muitos filhotes.
Continuamos nosso caminho para Sousse, que tem uma Medina bem maior que a daqui de Monastir. Assim que entramos já  nos deparamos com o movimento, estava bem agitada e os vendedores de todos os artigos que possa imaginar… ávidos por clientes, pois o turismo é uma grande e importante ocupação de muitos tunisianos. Sara comprou alguns itens e o JJ super negociou por um bom preço… O preço começa lá em cima e você pode jogar na metade ou ainda menos… E um item de 200 “dinheiros” pode ser comprado por 50 “dinheiros” e eles são muito gentis é claro e fazem “qualquer negócio” para atrair a atenção para seus produtos.
O colorido das ruas, os recantos e lugares simples da Medina proporcionam uma experiência única, o tempo voa quando passeamos pela Medina… Há muitas coisas típicas e também os mercados de frutas, verduras e carnes… Que pode ser bizarro às vezes… Tudo exposto para venda… Cabeça, patas, intestino, testículos… O que para nós culturalmente é um pouco impactante, pois nas cidades cada vez mais a produção se distancia do consumidor e a prateleira do supermercado traz com ela uma visão reduzida de todo o processo.
Com a vinda do JJ que nos trouxe “proscciutto crudo” e linguiça, matamos nossa vontade… Pois aqui em função da religião adotada, não há carne ou derivados suínos. Uma verdade é que neste tempo todo fora do Brasil, temos reduzido o consumo de carne vermelha, pois não é saborosa como a nossa da terrinha.
E lá se foi a semana, curtimos muito a companhia deles e então retornaram para Lampedusa e tiveram a notícia que teriam que ficar em quarentena… E agora as regras estão mudando e a segunda onda do Corona Vírus está se anunciando.
No decorrer deste ano decidimos não fazer muitos planos e ficarmos seguros até que a vida volte a uma normalidade. A Tunísia foi uma ótima descoberta, super amigável, tranquila, interessante culturalmente, custo de vida barato e com baixo número de casos e mortos, assim nos sentimos bem por estarmos aqui e os planos virão com segurança e muita água vai passar debaixo da quilha da Pharea rumo a lindos e novos lugares! Namastê 🙏🏻

Dia 1597, 06 de agosto de 2020. Monastir, Tunísia, Norte da África.

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Coisas simples que as vezes se tornam difíceis

Precisávamos imprimir alguns documentos e fomos numa lan house, o atendente nos indicou o computador e quando o Renato ia começar a transferir os arquivos deparou-se com um teclado bem diferente, sim era o teclado usado por eles, Árabes,  e não deu outra… Precisou chamar o atendente que o ajudou durante todo o processo.
Impossível achar o ponto, o hífen, além do que, a disposição das letras segue outra ordem… Muito engraçado, algo tão corriqueiro que de repente ficou complicado de fazer sem ajuda.

O público da lan house era somente de meninos que ficavam focados na tela do computador, com fones de ouvido, jogando algum game.
Tudo pronto e impresso, agradecemos a ajuda do atendente pois sem sua cooperação ficaria difícil realizar a nossa tarefa.
Encontramos alguma dificuldade em lojas ou quando o Renato procura por algo mais específico para o barco, pois às vezes nenhum atendente fala inglês e para tudo o que não encontramos eles nos olham e dizem “demain” que em francês significa: amanhã! No comércio em geral são bem amigáveis e gostam de comercializar.

Nas feiras falam bem alto os preços, competindo pela atenção de quem passa. Sempre há novidade na feira… agora tem o fruto das amendoas in natura, melancias e melões de vários tipos. Tudo fresco e com preço super acessível. Namastê🙏🏼.

Dia 1.578 morando a bordo. 19 de julho de 2020. Monastir, Norte da África.

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Há 8 meses na Tunísia 🇹🇳, Norte da África

Quando estávamos na Europa seguíamos o estabelecido no chamado “espaço Shengen”, ou seja, trânsito livre entre os países da União Européia sendo que em cada 6 meses é possível ficar 3 meses dentro deste espaço. Aqui na Tunísia podemos ficar 3 meses e tem a facilidade de ir estendendo este prazo de estadia através da compra de selos.
Nossos primeiros 3 meses venceram em 22 de fevereiro e o Renato providenciou a compra de selos por mais 2 meses, o tempo que tínhamos contratado na Marina para passar o inverno.
Porém em março começou lockdown e ficamos aqui aguardando o avanço e os desdobramentos sobre o Corona Vírus, já que a entrada nos outros países do Mediterrâneo estava fechada.
A Tunísia encerrou o lockdown em 27 de junho e novamente precisávamos estender nosso visto, pois já havia transcorrido o tempo de validade dos mesmos. Com isto para resolver fomos surpreendidos com o convite de um casal de amigos Canadenses, Caroline e Dany, para sairmos junto com eles para zerar nosso tempo na Tunísia. Depois de três horas e meia aguardando a liberação para a saída do barco soltamos as amarras do Zebulon, um Dufour 44 con bandeira Canadense, onde eles moram a bordo. Seguimos cerca de trinta milhas, rumo à ilha italiana de Lampedusa e chegamos às águas internacionais, demos um bordo e retornamos para Kuriat, pequena ilha com um farol e um navio encalhado que compõem o visual e fica a mais ou menos 08 milhas da marina de Monastir, onde estamos. Velejamos durante todo o percurso de ida, vento entre 7 e 15 knots, com velocidade média em torno de 7 knots. Há muito tempo não velejávamos e tivemos um dia maravilhoso. O dia foi também muito especial pois comemoramos aniversário do Capitão Dany e a Caroline preparou um jantar caprichado. Pernoitamos ancorados em Kuriat e cedinho ouvi um barulho e era o Renato que acordou e foi ver o nascer do sol no cockpit o que há muito tempo não fazia, já que estamos na Marina. Levantamos, o dia estava ensolarado e o mar super limpo… Dava para acompanhar o balanço do seagrass no fundo do mar e a âncora estava visível, pois a água estava realmente transparente.
Fomos todos para a água aproveitar aquele presente da natureza para nós! Mais tarde retornamos para a Marina e demos entrada novamente e assim conseguimos zerar nosso tempo passado e iniciar a nova contagem.

Fim de semana muito bacana na companhia dos amigos super queridos! Não imaginávamos passar tanto tempo aqui na África, mas realmente foi uma surpresa maravilhosa e culturalmente muito interessante. Só a agradecer. Namastê 🙏🏻

Dia 1.568 morando a bordo. 09 de julho de 2020. Monastir, Tunísia 🇹🇳, Norte da África.

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Rotinas da vida a bordo…

Morar a bordo pressupõe assumir diversas atividades no cotidiano. Como bem disse meu sogro: um veleiro é uma “casa viva” e quem está à bordo deve suprir suas necessidades ou pagar a alguém para que as supra. No nosso caso, cada vez mais assumimos as diferentes tarefas para manter tudo em ordem. As principais áreas dessa casa viva são:
– A navegação e aí entra o conhecimento dos regimes de ventos, correntes e marés, o domínio da técnica e o planejamento da melhor rotas e planos B e C…;
– A manutenção, esta é continua, pode-se dizer diária. O Renato já conhece e sabe fazer a manutenção de praticamente tudo à bordo, lógico que isso requisita muitas horas estudando os manuais e também procurando diferentes soluções nas redes sociais;
– Manter a organização geral da embarcação, aplicando aquela máxima que os velejadores conhecem…. cada coisa em seu devido lugar, para que você possa pegá-la no escuro, se precisar;
– A alimentação, manter uma dieta equilibrada, no nosso caso, priorizando sempre o consumo de frutas e vegetais da estação, o que proporciona diferentes pratos e o conhecimento de novos sabores, segundo a culinária do local onde estamos. Aqui na Tunísia 🇹🇳 come-se muito cuscuz, muita pimenta, vegetais e frutas frescas, lanches rápidos encontrados nas comidas de rua e pães bem diferentes e deliciosos;
– E é claro a limpeza, agora que estamos na Marina com água disponível o barco é lavado dia sim e dia não, aqui sofremos a incidência dos ventos provenientes do deserto do Saara e por isso carrega uma areia vermelha que nos incomoda e deixa um aspecto feio de sujeira no convés. As armações de inox ficam muito sujas e não tem outro jeito senão estar sempre limpando. Geralmente o Renato cuida da área externa e eu da interna. Lavo as roupas no barco, exceto quando temos lençóis ou as capas dos estofados, quando então mandamos para a lavanderia. Às vezes penso sobre isso, a questão das roupas, quando morava em terra sempre usei máquina e lavanderia e de repente tantos anos depois estou aqui, lavando a nossa roupa a mão e na maior felicidade… isso demonstra para mim como não são as “coisas” que realmente importam e sim como você se sente internamente.
Bem, eu e o Renato sempre fomos muito dedicados a manter nosso barco da melhor maneira possível e como qualquer velejador, o melhor barco é o seu barco! Essa rotina diferente fazendo tantas coisas que antes não fazíamos e delegávamos para outras pessoas nos faz muito bem, nos sentimos realmente nos cuidando e cuidando de nossa casa viva e também dispendendo tempo para cuidar de nossa mascote Bella, sempre alegre e sempre alerta a qualquer barulho e a tudo o que acontece próximo do barco. Adoro essa “rotina” que é  simples e nos deixa livres para viver os dias mais intensamente. Só a agradecer. Namastê!

Dia 1542 morando a bordo. 13 de junho de 2020. Monastir, Tunísia, Norte da África.

 

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Pão quentinho “every day”!

Poucas pessoas resistem ao cheirinho de um pão quentinho. Alimento apreciado em praticamente todo o mundo e segundo historiadores, acredita-se que o pão tenha surgido há 12 mil anos, na Mesopotâmia, atual Iraque, em decorrência do cultivo de trigo.
São muitas as receitas e anos atrás cada família praticamente tinha sua própria receita e os pães eram feitos em casa. Quando criança minha mãe fazia pães de trigo e de farinha de milho e eram realmente deliciosos.
Fomos crescendo e os hábitos familiares mudaram e ficou mais fácil pegar os pães na padaria, escolhendo entre vários tipos. Depois passamos a comprar o pão nos supermercados e então foi a vez dos pães fatiados e integrais.
Quando começamos nossa viagem no Mediterrâneo, adoramos os pães da Croácia 🇭🇷, casca crocante, miolo macio e úmido… junto com um azeite, simplesmente perfeito! Em Montenegro 🇲🇪 não lembro exatamente do pão que encontrávamos lá…. mas na Grécia 🇬🇷 os pães eram deliciosos e havia muito pão tipo “pita” com formato achatado e levemente tostado; Uau… na Itália 🇮🇹 só pães deliciosos, também vários tipos e todos ótimos, o famoso pão italiano.
Agora, aqui na Tunísia 🇹🇳, onde não tínhamos nenhuma expectativa de pão gostoso, nos surpreendemos com a variedade e sabor. Acreditamos que em função da forte ligação com a França, toda área de pães, massas e doces sofreu grande influência francesa e há doces e biscoitos maravilhosos aqui.
Interessante também é ver no mercado inúmeros tipos de farinha, específicos para cada tipo de pão ou massa que quiser fazer… ainda não experimentamos todos…
Mas, pensando em como fazer esse alimento diário e de rico sabor que encontramos por aqui, e nos outros lugares que estivemos, vimos que eles tem em comum o tipo de fermento usado, denominado Levain, feito à base de farinha e água.
E aqui tivemos o prazer de reencontrar um casal francês Louis e Annick, que os conhecemos brevemente na Itália e quando estiveram em nosso barco, conversando sobre muitas coisas… o Louis nos falou que fazia pão e brioche…. (os pães italianos são bem conhecidos mas atenção, porque os melhores são os franceses), então ele passou sua receita para o Renato e o ensinou a fazer o pão usando Levain para à fermentação e ainda assando numa frigideira, o que a bordo é perfeito!
Bem, isso aconteceu há duas semanas atrás e agora estamos mais completos, não precisamos mais ir ao mercado ou a padaria pois diariamente o Renato faz nosso pão e acordar com o cheirinho de pão assando é maravilhoso!
Já fez também algumas variações para o lanche da noite inserindo alecrim e outras especiarias e ficou perfeito para aperitivo.
Agora estamos empatados, eu tenho Kefir de leite, que preciso cuidar diariamente e o Renato tem o Levain, que precisa ser trabalhado duas vezes ao dia. Mas vale muito a pena investir este tempo e poder curtir algo feito por nós mesmos. É uma dedicação que trás ótimos resultados!
Agora o Comandante, que já era o responsável pelo churrasco, fica também responsável pelo pão quentinho de cada dia, não tem como trocar de vida. Namastê 🙏🏼

1443 dias morando a bordo. 04’de junho de 2020. Monastir, Norte da África.

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