Rotinas da vida a bordo…

Morar a bordo pressupõe assumir diversas atividades no cotidiano. Como bem disse meu sogro: um veleiro é uma “casa viva” e quem está à bordo deve suprir suas necessidades ou pagar a alguém para que as supra. No nosso caso, cada vez mais assumimos as diferentes tarefas para manter tudo em ordem. As principais áreas dessa casa viva são:
– A navegação e aí entra o conhecimento dos regimes de ventos, correntes e marés, o domínio da técnica e o planejamento da melhor rotas e planos B e C…;
– A manutenção, esta é continua, pode-se dizer diária. O Renato já conhece e sabe fazer a manutenção de praticamente tudo à bordo, lógico que isso requisita muitas horas estudando os manuais e também procurando diferentes soluções nas redes sociais;
– Manter a organização geral da embarcação, aplicando aquela máxima que os velejadores conhecem…. cada coisa em seu devido lugar, para que você possa pegá-la no escuro, se precisar;
– A alimentação, manter uma dieta equilibrada, no nosso caso, priorizando sempre o consumo de frutas e vegetais da estação, o que proporciona diferentes pratos e o conhecimento de novos sabores, segundo a culinária do local onde estamos. Aqui na Tunísia 🇹🇳 come-se muito cuscuz, muita pimenta, vegetais e frutas frescas, lanches rápidos encontrados nas comidas de rua e pães bem diferentes e deliciosos;
– E é claro a limpeza, agora que estamos na Marina com água disponível o barco é lavado dia sim e dia não, aqui sofremos a incidência dos ventos provenientes do deserto do Saara e por isso carrega uma areia vermelha que nos incomoda e deixa um aspecto feio de sujeira no convés. As armações de inox ficam muito sujas e não tem outro jeito senão estar sempre limpando. Geralmente o Renato cuida da área externa e eu da interna. Lavo as roupas no barco, exceto quando temos lençóis ou as capas dos estofados, quando então mandamos para a lavanderia. Às vezes penso sobre isso, a questão das roupas, quando morava em terra sempre usei máquina e lavanderia e de repente tantos anos depois estou aqui, lavando a nossa roupa a mão e na maior felicidade… isso demonstra para mim como não são as “coisas” que realmente importam e sim como você se sente internamente.
Bem, eu e o Renato sempre fomos muito dedicados a manter nosso barco da melhor maneira possível e como qualquer velejador, o melhor barco é o seu barco! Essa rotina diferente fazendo tantas coisas que antes não fazíamos e delegávamos para outras pessoas nos faz muito bem, nos sentimos realmente nos cuidando e cuidando de nossa casa viva e também dispendendo tempo para cuidar de nossa mascote Bella, sempre alegre e sempre alerta a qualquer barulho e a tudo o que acontece próximo do barco. Adoro essa “rotina” que é  simples e nos deixa livres para viver os dias mais intensamente. Só a agradecer. Namastê!

Dia 1542 morando a bordo. 13 de junho de 2020. Monastir, Tunísia, Norte da África.

 

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Pão quentinho “every day”!

Poucas pessoas resistem ao cheirinho de um pão quentinho. Alimento apreciado em praticamente todo o mundo e segundo historiadores, acredita-se que o pão tenha surgido há 12 mil anos, na Mesopotâmia, atual Iraque, em decorrência do cultivo de trigo.
São muitas as receitas e anos atrás cada família praticamente tinha sua própria receita e os pães eram feitos em casa. Quando criança minha mãe fazia pães de trigo e de farinha de milho e eram realmente deliciosos.
Fomos crescendo e os hábitos familiares mudaram e ficou mais fácil pegar os pães na padaria, escolhendo entre vários tipos. Depois passamos a comprar o pão nos supermercados e então foi a vez dos pães fatiados e integrais.
Quando começamos nossa viagem no Mediterrâneo, adoramos os pães da Croácia 🇭🇷, casca crocante, miolo macio e úmido… junto com um azeite, simplesmente perfeito! Em Montenegro 🇲🇪 não lembro exatamente do pão que encontrávamos lá…. mas na Grécia 🇬🇷 os pães eram deliciosos e havia muito pão tipo “pita” com formato achatado e levemente tostado; Uau… na Itália 🇮🇹 só pães deliciosos, também vários tipos e todos ótimos, o famoso pão italiano.
Agora, aqui na Tunísia 🇹🇳, onde não tínhamos nenhuma expectativa de pão gostoso, nos surpreendemos com a variedade e sabor. Acreditamos que em função da forte ligação com a França, toda área de pães, massas e doces sofreu grande influência francesa e há doces e biscoitos maravilhosos aqui.
Interessante também é ver no mercado inúmeros tipos de farinha, específicos para cada tipo de pão ou massa que quiser fazer… ainda não experimentamos todos…
Mas, pensando em como fazer esse alimento diário e de rico sabor que encontramos por aqui, e nos outros lugares que estivemos, vimos que eles tem em comum o tipo de fermento usado, denominado Levain, feito à base de farinha e água.
E aqui tivemos o prazer de reencontrar um casal francês Louis e Annick, que os conhecemos brevemente na Itália e quando estiveram em nosso barco, conversando sobre muitas coisas… o Louis nos falou que fazia pão e brioche…. (os pães italianos são bem conhecidos mas atenção, porque os melhores são os franceses), então ele passou sua receita para o Renato e o ensinou a fazer o pão usando Levain para à fermentação e ainda assando numa frigideira, o que a bordo é perfeito!
Bem, isso aconteceu há duas semanas atrás e agora estamos mais completos, não precisamos mais ir ao mercado ou a padaria pois diariamente o Renato faz nosso pão e acordar com o cheirinho de pão assando é maravilhoso!
Já fez também algumas variações para o lanche da noite inserindo alecrim e outras especiarias e ficou perfeito para aperitivo.
Agora estamos empatados, eu tenho Kefir de leite, que preciso cuidar diariamente e o Renato tem o Levain, que precisa ser trabalhado duas vezes ao dia. Mas vale muito a pena investir este tempo e poder curtir algo feito por nós mesmos. É uma dedicação que trás ótimos resultados!
Agora o Comandante, que já era o responsável pelo churrasco, fica também responsável pelo pão quentinho de cada dia, não tem como trocar de vida. Namastê 🙏🏼

1443 dias morando a bordo. 04’de junho de 2020. Monastir, Norte da África.

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A vida é cheia de bons momentos

Sentir a vida acontecendo, os anos passando e viver intensamente uma nova vida, morando a bordo do veleiro Pharea, me faz sentir muito feliz!

Ao realizarmos este sonho que o Renato idealizou, transformamos nossa vida totalmente, deixamos muitas coisas e pessoas queridas mas agora aprendemos a viver com menos, continuamos próximos das pessoas queridas através das redes sociais e temos tempo de conhecer muitos lugares por onde vamos passando e também fazer novos amigos, aumentando nossa bagagem e enriquecendo nossa percepção sobre  o mundo. Já moramos a bordo há 1.437 dias e ontem comemoramos meu aniversário, 54 anos, já tenho mais tempo vivido do que há viver… Mas sinto que iniciei uma nova jornada aos 50 anos, quando fomos morar à bordo e então me sinto uma criança ainda… 4 anos de vida nova e sei que há muito o que viver.

Aqui na marina onde estamos em Monastir, Tunísia, há um grupo de velejadores muito legal e de várias nacionalidades… americana, canadense, francesa, mexicana, alemã, theca, slovaka, holandesa, italiana….

E ontem recebi uma linda festa surpresa… Churrasco com praticamente todos presentes, o

Renato e as mulheres velejadoras organizaram tudo e eu nem desconfiei que teria um dia tão especial, recebendo o carinho e a atenção de tantos novos amigos… Foi maravilhoso…bom astral e muita música. Me senti grata, muito especial e feliz por este dia tão alegre e cheio de boas energias.

Agradeço muito ao Renato por me trazer para esta nova vida e por corresponder todo o amor que sinto por ele, aos amigos daqui, tão especiais e gentis em me proporcionar um aniversário tão feliz e a família e amigos que mesmo distantes estão sempre em nossos pensamentos. Só a agradecer. Namastê 🙏🏻

Dia 1.437 morando a bordo, 29 de maio de 2020. Monastir, Tunísia, África.

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Vivendo as diferentes estações do ano.

Quando vivemos em terra sentimos a mudança de estações de forma diferente daquela que sentimos vivendo a bordo de um veleiro. Aqui tudo é mais impactante e mais intenso. O clima interfere em tudo, no que vamos fazer ou onde queremos ir, influi no conforto, nas possibilidades e planejamento. Se estiver chovendo, certamente você não sairá para ir ao mercado pegar suprimentos, pois indo com o dingue ficará literalmente enxarcado; se planejou uma ancoragem e o vento mudou pode ser que fique desabrigado e não seja seguro ir para lá, melhor mudar a rota ou ficar onde está; se estiver na marina num verão quente sentirá muito calor no barco, diferente de estar numa ancoragem onde normalmente o barco fica aproado para o vento; lógico que há muitas soluções, no último caso o ar condicionado seria uma delas. Enfim, morando a bordo nos sentimos dentro da natureza e somos atingidos por seus fenômenos diariamente, por isso, meu Comandante anota todos os dias os dados em seu diário de bordo e acompanha os padrões do clima do lugar, pois sem dúvida é um dos fatores mais relevantes na vida dos velejadores.
As mudanças de estação são esperadas, desejadas. Algo que nos encanta na primavera, além das flores que enfeitam as cidades e lugares é que o verão é a próxima estação. Ah tão esperado esse verão. Nosso último verão foi na Grécia em 2018 pois em 2019 estávamos no Brasil e assim emendamos 3 estações de invernos, pois voltamos para a Europa um mês antes do começo do terceiro inverno.
Quando pensamos em velejar é automático pensarmos num clima quente e ensolarado, no nosso caso é claro, pois temos amigos queridos que curtem baixas temperaturas e para eles velejar em baixas temperaturas é tão interessante como para nós que preferimos o calor.
Mas como no hemisfério norte a navegação é curta e geralmente de novembro a abril os barcos ficam nas marinas, abrigados do tempo, surge aí uma ótima oportunidade para viajar e conhecer os lugares próximos em terra.
Nosso primeiro inverno na Europa foi na Croácia, em março quando chegamos estava bem frio e nevando e depois no começo da primavera vimos ruas enfeitadas com tulipas de todas as cores. Incrível ver a cidade toda colorida com uma flor tão frágil como a tulipa.

Depois, passamos um período na Itália onde o seu inverno é também bem frio, víamos as montanhas nevadas da marina onde estávamos e nos encantamos na primavera com as flores amarelas das azedinhas… Cobrindo o solo das plantações de cítricos e das oliveiras… A forma da beleza encontrada na simplicidade.
Agora aqui na Tunísia, quando chegamos em novembro/19 não vimos flores… O solo é bem rochoso e arenoso e por isso menos flores…. Mas na primavera encontramos muitas flores rasteiras ou de suculentas, que aliás há muitas aqui e soube também que a tão conhecida e usada Aloe Vera, a nossa Babosa, é proveniente da África. Sentimos muito a diferença dos ventos aqui, quando entra vento sul traz areia vermelha do Deserto do Saara e o barco fica coberto dessa poeira e areia muito fina… O Comandante já está conhecido na Marina por lavar o barco praticamente um dia sim e outro não… Mas não dá para deixar sujo pois a Bella fica praticamente o dia todo andando pelo cockpit! Mas mesmo assim, o importante é que gostamos muito do clima daqui no inverno, raramente frio… Poucas vezes tivemos temperatura abaixo de 10 graus celsius… Clima super bom e com pouca chuva. Soubemos através dos velejadores que já estiveram aqui em outras temporadas, que no verão faz muito calor e que a sensação térmica é altíssima.
Bem, como ainda não sabemos ao certo como será e onde iremos no verão, provavelmente pegaremos este calor todo daqui, possivelmente velejaremos pela costa da Tunísia e com certeza será uma ótima experiência e ainda continuaremos mais protegidos do Corona Vírus por aqui, visto que com as ações proativas do governo o número de mortes foi baixíssimo, considerando que o país tem cerca de 12 milhões de habitantes. Sem dúvida, para nós está sendo muito bom estar aqui nesta fase de pandemia mundial. A ordem mundial agora é “Cuide-se! De você e dos outros, não se exponha sem necessidade.
Namastê!

Dia 1.418 morando a bordo. 10 de maio de 2020. Monastir, Tunísia 🇹🇳

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Algumas regras de boa convivência na Marina

Quando compramos nosso veleiro na Croácia, em março de 2018,  passamos o inverno lá e sentimos que realmente não é possível navegar o ano todo no Mediterrâneo, ou seja, seis meses o barco fica parado na marina, em função das condiçoes climáticas, frio e vento mais rigorosos.

É necessário o uso de aquecedor e normalmente ele fica ligado direto mantendo o ambiente interno quente e seco e na Marina contamos com a segurança de estar abrigados dos fortes ventos do hemisfério norte.

Assim…são seis meses convivendo com os outros  “residentes de inverno” que estiverem na marina.
Esta é uma parte fantástica da vida a bordo na marina, conhecer muitas pessoas de diferentes nacionalidades e compartilhar alguns momentos como o “churrasco de domingo” quando a maioria participa, também os  passeios às cidades próximas e as idas aos cafés e restaurantes… além é claro dos “happy hours on board” no fim do dia.

Nossa listinha de amigos estrangeiros cresceu muito nestes anos… começamos com amigos canadenses, israelenses e depois vieram os italianos, holandeses, alemães, ingleses, gregos,  poloneses, franceses, suiços, uma chinesa, americanos, australianos, espanhóis, uma mexicana, ….

Estes novos amigos nos troxeram um novo olhar sobre muitas coisas, muitos sorrisos, muitas conversas e muita troca de gentileza… como ganhar um pão quentinho, um limoncelo, uma sobremesa, uma sopa quentinha quando se está resfriado… ou um pequeno mimo para guardar de lembrança.

Pensando nesta convivência tão próxima que acabamos tendo me deparei com as regras abaixo, publicadas por Kevin Falvey, em 7 de março de 2013, porém bem atuais e focadas na camaradagem entre marinheiros:

1. Ao abastecer ou carregar, mova seu barco da doca de combustível ou da bóia de carregamento assim que terminar; Não exceda o tempo sem a permissão do mestre da doca.

2. Mantenha a velocidade baixa ao entrar na Marina. Não perturbar seus novos vizinhos os manterá felizes.

3. Ao usar o banheiro do barco, use o holding tanque e não despeje diretamente no mar, pode ser desagradável para seu vizinho. Descarregue à noite se for o caso.

4. Arrume suas linhas, cabos e mangueiras ordenadamente e não as deixe atravessar o pier se puder evitar. Eles podem oferecer perigo, alguém pode tropeçar, principalmente à noite.

5. Verifique se há espaço no pier, caso queira fazer algum trabalho ou conserto. Considere não obstruir a passagem de pessoas e carrinhos devido a suprimentos/materiais deixados no pier.

6. Se possível, não deixe sua proa muito próxima do pier. É um perigo, principalmente se a âncora estiver saliente.

7. Não deixe comida ou lixo no cockpit ou no pier em frente ao barco ou qualquer outro lugar: atrai gatos, ratos, baratas e moscas.

8. Não embarque em outro barco sem permissão. Espere ser convidado.

9. Muitos podem não gostar da sua coletânea musical, não deixe o som tão alto que possa aborrecer seu vizinho.

10. Desligue os equipamentos eletrônicos ao sair do barco. Ninguém quer ouvir um rádio VHF chiando a noite.

Eu ainda acrescentaria mais essas:

– Se ancorar muito próximo a outro barco, o barulho do seu gerador pode aborrecer seu vizinho, fique mais distante e desfrute do seu gerador;
– Se constatar algo errado em um barco sem tripulação, comunique o staff da Marina a respeito;
– Ao chegar na Marina informe-se sobre as regras a serem respeitadas.
– Caso seu acesso a água seja compartilhado, assim que usar retire sua mangueira da torneira do píer;
– Seja gentil e auxilie na amarração dos cabos da embarcação que está chegando.

Este tempo de convivencia é bem intenso e próximo e sempre temos algumas pessoas que nos identificamos mais e ao partirmos fica a saudade, porém mantemos contato via redes sociais e assim vamos acompanhando seus deslocamentos e conhecendo lugares interessantes que visitaram.

Agora podemos dizer que temos amigos pelo mundo, pessoas simples, gentis que como nós optaram por uma vida descomplicada e itinerante.

A todos estes amigos novos e aos anteriores a eles, que já faziam parte de nossa história, só a agradecer pelos bons momentos que passamos juntos e que possamos nos encontar novamente. Bons ventos. Namastê.

Dia 1.408, morando a bordo. 30 de abril de 2020. Monastir, 🇹🇳.

 

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