Me peguei pensando na diferença entre acidente e incidente e o que sofremos foi o segundo. Apesar de ambos serem um acontecimento inesperado, o primeiro tem maior proporção e pode ser irreversível, enquando que o segundo pode ser reparado.
Na vida diária no mar há muitas questões de segurança envolvidas e sempre estamos atentos a isso, porém ocorrem os imprevistos e neste caso não estava sob nosso controle, um veleiro garrou (a sua âncora arrastou no fundo do mar) e veio de encontro a Pharea em meio a uma tormenta com ventos fortes e rajadas de mais de 120 km/h.
Estávamos cientes dos fortes ventos que alcançariam Maiorca naquele domingo, havia alertas nos aplicativos de previsão de tempo e nos noticiários.



Estávamos na baía de Santa Ponsa, em Maiorca, havia muitos outros barcos ancorados, mas todos com boa distância de giro e tudo ia bem até que um barco de bandeira inglesa, chamado Curlew (foto), começou a ser empurrado pelo vento e engatou na corrente da nossa âncora e isso em meio a ondas de 2,5 metros de altura.

Então começou um sobe e desce desencontrado dos barcos e as ferragens da popa do Curlew se engataram no nosso pulpito de proa (armação de inox que protege a proa do barco) e a destruiu deixando o inox todo retorcido além de vários danos à fibra do costado de bombordo e proa.





Muito provável que o mastro do Curlew tenha batido no nosso, pois a estação de vento no topo do nosso mastro quebrou e o suporte da antena de rádios estava torto. Quando o Curlew desengatou da nossa proa veio para a popa e quase danificou nossa targa onde ficam os painéis solares, o bote de apoio e seu motor.
Uau foram uns 15 minutos de horror. O casal do barco Curlew estava dentro do barco, não tinham visto que o barco estava arrastando a âncora, quando o barco se aproximou o Renato bateu na janela do barco para chamá-los e quando saíram ficaram paralisados com a cena do barco deles batendo no nosso.

O Renato tentava afastar mas era um barco (foto) com cerca de 20 toneladas, a tempestade estava em seu auge, não dava para manter os olhos abertos e Renato gritava para o homem: ligue o motor, você está destruindo o meu barco e o homem ficou parado até que finalmente ligou o motor, e se desvencilhou da proa e veio para a nossa popa e por fim sua corrente começou a passar embaixo do nosso barco e poderia ter arrancado nosso leme e se caso nossa ancora não estivesse bem unhada, o que estava, pois suportou os dois barcos por 15 minutos, poderíamos ter ido para cima de outros barcos.

A temperatura mudou completamente e em poucos minutos estávamos com roupas de tempo que usamos no inverno.
O veleiro Curlew após tudo isso, simplesmente fugiu da baía e nós ficamos profundamente chateados com essa postura que demonstrou tudo o que um velejador não é. Sua atitude foi horrivel, uma falta de empatia e de consideração com o outro, uma postura que nos deixou irritados e sem muito a fazer. No AIS, eletrônico onde podemos localizar as embarcações, não os localizamos, com certeza desligaram para ficar na surdina.
A tempestade foi muito forte e tudo ocorreu entre às 11 e meio-dia, espaço em que infelizmente vimos outros barcos em apuros. Alguns outros garraram, outros tiveram as velas abertas e rasgadas pelo vento, muitos barcos tentando levantar âncora e sair e os nossos amigos alemães Ditmar e Trixi, que estavam ancorados mais próximos da praia tiveram seu barco encalhado na areia, em segundos como disse o Ditmar.

Na manhã seguinte estávamos no barco e vimos um cordão humano de banhistas e outras pessoas na praia envolta do veleiro do Ditmar, um Jenneau, de 34 pés, e todos começaram a fazer um “olé” e todas essas mãos juntas conseguiram desencalhar o veleiro e colocá-lo novamente na água. Foi emocionante ver tanta solidariedade.
Na ancoragem o balanço continuava insuportável e nos mudamos para outra local a cerca de 4 km e quem encontramos lá? O veleiro Curlew que bateu na Pharea. Circulamos o veleiro dele o Renato falou que tínhamos que conversar e o cara simplesmente se esquivou.
Antes do almoço colocamos o bote na água e o Renato foi falar com o capitão do Curlew, que simplesmente se enfiou dentro do barco e não saiu para conversar… gritou lá de dentro que a gente se virasse, que acionassemos nosso seguro ou chamassemos a polícia.
A comunidade náutica é geralmente unida, solidária e prestativa, mas como em todos os lugares e setores, há também a classe dos “pilantras” e acabamos de sentir na pele que eles existem nos dois hemisférios! Na segunda-feira, dia 28, um dia após esse grande mau tempo que assolou vários lugares, vimos alguns vídeos nas mídias sociais dos estragos em terra e no mar.


O Majorca Daily Bulletin informou o número de registros, chegando próximo de 400 ocorrencias em função da forte tempestade e dos ventos com força de furacão, que ocorrem durante uma hora levando também ao cancelamento de vôos e paralisação do transporte via trem e metrô.
Bem, além do corpo dolorido e de vários hematomas estamos bem e o Capitão já começou a verificar todos os danos e planejar como faremos para deixar a Pharea em ordem novamente. Vamos abortar a ida a Ibiza e Formentera e seguiremos direto para a costa da Espanha pois no fim de semana tem previsão de mais ventos fortes na região. Abaixo um lindo entardecer na baía onde sofremos o incidente.

Namastê 🙏🏻
28 de agosto de 2023. Morando a bordo do veleiro SV Pharea em Maiorca, Espanha 🇪🇸