Além das especiarias, o valoroso mel da Turquia 🇹🇷

Mais uma previsão de ventos fortes e seguimos com os amigos do Imagine 2 para uma nova ancoragem, próxima da marina onde levantamos o barco para fazer as manutenções. É uma pequena Baía, onde outros amigos já estiveram e nos falaram que é bem abrigada do vento sul, levantamos ancora logo cedo e fomos até a Marina fazer nosso Pump out e abastecer de combustível e água e depois rumamos para a ancoragem há 2,4 milhas e ancoramos prendendo também o barco na popa.

Logo chegou o Imagine 2 e depois o Tartuga e ao final estávamos em oito barcos ancorados e presos de popa. Na baia ao lado onde passeamos com o bote também havia mais oito barcos. Com certeza todos eles saíram da baia em frente a cidade e como nós, vieram se proteger aqui. Todos super preparados para o vento previsto, mas felizmente desta vez ele acabou perdendo força no caminho e não chegou.

Aproveitamos os fins de tarde para fazer happy hour com os amigos e diariamente nós íamos até a pequena praia em nossa popa para caminhar com a Bella. Identificamos muitos rastros de animais, que pareciam ser de javali e também acordávamos todos os dias com o canto dos pássaros, algo maravilhoso.

Andando pela praia vimos vários pés de Louro Cravo, uma especiaria bem comum no Brasil e muito usada na Itália e em todos os países europeus que passamos. Pedi ao Renato para colhermos alguns galhos, pois já havia procurado na feira e não havia encontrado. Assim trouxemos os galhos, eu lavei e depois costurei folha por folha para pendurar para secar… Isso trouxe muitas recordações também de minha infância, sou descendente de italianos e o louro sempre foi muito usado em várias receitas e também como chá, tendo inúmeros benefícios. Creio que por um longo tempo não precisarei mais comprar.

Um dia antes do vento previsto um veleiro tentou várias vezes ancorar em nosso bombordo e o Renato foi ajudá-los com as linhas de popa, era um casal turco com mais idade. Depois de ancorados, o homem veio até nosso barco e nos trouxe um pedaço de mel puro, ainda nos favos, é esse tipo de pessoas que encontramos na vida no mar.

O mel é muito valorizado na Turquia, existem muitas e boas lojas de mel e derivados, uma das variedades encontradas aqui é o mel de pinheiro, produzido através da transferencia das abelhas para os pinhais, na Costa do Mar Egeu do país, onde elas recolhem o resíduo do melaço deixado por um inseto que vive apenas na seiva de alguns tipos de pinheiro e com isso fazem a produção desse mel que é mais escuro daquele que normalmente utilizamos no Brasil.

Há também o mel Centauri, um dos mais caros do mundo chegando a custar de 7.500 a 175.000 euros por kilo, que é colhido numa gruta a mais de 2.500 metros acima do nível do mar – longe de humanos ou de outras colónias de abelhas. O néctar é bastante diferente do mel convencional pois é escavado, tem um tom escuro, um sabor amargo e tem uso medicinal.

Realmente os turcos são grande produtores e apreciadores de mel. Ele tem sido usado como remédio na Turquia há pelo menos 10.000 anos. Os produtos apícolas foram explorados continuamente desde o sétimo milênio a.C. Pinturas de parede e outros motivos de abelhas e mel encontrados em Catalhöyük na Turquia datam de 8.000-7.000 a.C., enquanto moedas encontradas em Éfeso e a menção de mel nas obras clássicas de Homero apontam para a importância do produto ao longo da história do que agora é chamado de Turquia. Um ponto que atinge negativamente a produção do mel são as queimadas, que normalmente atingem a costa Sul e Oeste do país, onde há muitos apiários.

Na Pharea usamos mel diariamente para adoçar nosso “shot” matinal: água quente, limão e mel, para nos dar mais energia e aumentar nossa imunidade.

Namastê!

15 de março de 2023. Morando a bordo do veleiro SV Pharea em Marmaris, Turquia. 🇹🇷
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Veleiro pronto para cruzar o Mediterrâneo!

Com planos de cruzar o Mediterrâneo neste ano, precisávamos fazer as manutenções no veleiro e a ideia inicial era levantarmos o barco para fazer a preparação e a pintura antifouling em abril, para estarmos prontos para levantar âncora em maio, porém após consulta dos preços nas marinas aqui em Marmaris, o Renato verificou que os preços estavam menores nos meses de inverno, assim aproveitamos para fazer o trabalho na segunda quinzena de fevereiro.

A última vez que tiramos o barco da água para pintura do casco foi na Itália 🇮🇪, no final de 2019 e depois tiramos novamente quando estávamos na Tunísia 🇹🇳, em 2021, para trocar a rabeta e o hélice, que havia sofrido corrosão galvânica e naquele momento aproveitamos para pintar somente a quilha. Durante todo esse tempo o Renato fez a limpeza do casco na água e agora é hora de deixarmos tudo “novo” novamente.

Eu tinha uma vaga ideia sobre o serviço que teríamos que fazer, mas confesso que na prática foi bem mais exaustivo que pensei, potencialmente para o Renato que fez todo o trabalho pesado. Primeiro precisou preparar o leme que estava com alguns pontos de osmose e isso levou alguns dias até poder secar e colocar a resina, para depois lixar. Depois ele lixou o casco, retirando todas as camadas de tinta sobrepostas até chegar no gel. Esse trabalho foi exaustivo, foram oito dias lixando e tudo no entorno ficou azul, inclusive ele, que parecia o “Papai Smurf”. Na sequência foi a vez do lixamento da quilha que é de metal e também tinha várias camadas de tinta que precisavam ser removidas.

Minhas tarefas foram limpar o hélice, lixei com escova de aço e depois com a lixa, até tirar toda a tinta e deixar no alumínio; limpar o bow-thruster, lixando até saírem as cracas incrustadas e também as camadas de tinta antiga; limpar o bote, que subimos e estava no convés e aproveitamos para resinar e pintar a parte de madeira onde fica preso o motor e já que estávamos na Marina, com água à vontade, aproveitar para lavar todos os tapetes do barco, roupas e cobertores…

Na sequência, depois que o casco foi lixado e lavado o Renato começou a pintar e foram várias camadas, primeiro de primer epóxi e depois da tinta antifouling, que protegerá o casco contra as incrustações de cracas e algas por mais dois anos.

O último trabalho foi o polimento, que também é super exaustivo. Trabalhávamos das oito da manhã até às cinco da tarde e à noite dormíamos como um pedra de tão cansados que estávamos. O trabalho foi enorme para 14 dias e fazendo tudo nós mesmos, fiquei admirada com resistência do Renato, pois o serviço foi bem pesado.

O veleiro Tartuga, de nossos amigos canadenses, também levantou o barco ao mesmo tempo e usamos algumas de suas ferramentas nos serviços feitos na Pharea, o que nos ajudou muito, pois sem eles acredito que não teríamos conseguido fazer nesse tempo.

Bem, tudo pronto e finalmente chegou o dia de voltarmos para a água.

O dia estava calmo, sem vento e pela manhã o travel lift tirou primeiro o veleiro Tartuga, que estava atrás da Pharea no pátio de serviço e logo após foi a nossa vez de voltar para a água e para a linda ancoragem em frente a cidade.

Sentimento de dever cumprido e satisfação de estar com o barco preparado para as travessias que nos esperam neste ano e agora chegou a hora de fazermos um churrasco com os amigos para comemorar.

Namaste 🙏🏻

03 de março de 2023. Morando a bordo do veleiro SV Pharea em Marmaris, Turquia. 🇹🇷

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Este janeiro foi bem melhor que o anterior

O mês de janeiro foi ótimo em relação ao tempo. Diferentemente do ano passado, que pegamos até neve aqui em Marmaris, este ano a temperatura está mais alta em torno de 6 graus centígrados e choveu menos, o que faz uma grande diferença, quando se vive a bordo.

O Renato mantém seu diário de bordo atualizado e diariamente comparamos a temperatura com a do ano passado e felizmente estamos tendo um inverno bem mais quente. Supõem-se que janeiro, fevereiro e março sejam os meses mais frios do inverno, porém até agora a temperatura mais baixa dentro do barco foi de 13 graus Celsius, subindo para 16 ou 18 durante o dia. Os dias têm sido ensolarados mas quando o sol se põe podemos sentir no ato a diferença da temperatura que segue esfriando durante a noite (foto Karina SV Tartuga).

Nos chamou atenção o fato de que no ano passado estávamos em apenas três barcos passando o inverno na baía de Marmaris, mas este ano a configuração mudou totalmente, estamos em cerca de vinte barcos passando o inverno ancorados aqui. Esse aumento ocorreu por vários motivos, entre eles o aumento do preço das marinas, que já não são nada baratas por aqui, a questão da guerra entre Rússia e Ucrânia, o que trouxe muitos barcos com tripulação russa e também o aumento de velejadores ingleses que após o Brexit, perderam a possibilidade de permanecer mais de três meses nos países que fazem parte do Tratado de Schengen. Todos estes fatores contribuíram para o aumento de barcos por aqui e ter um clima mais quente está agradando a todos.

É final de janeiro e ainda há pessoas que entram no mar diariamente, os locais e alguns turistas nadam na praia junto ao calçadão e o pessoal dos barcos nadam entre os veleiros o que para nós é impensável, pois água já está por volta de 14 Graus Celsius. Para nós é incrível ver a resistência ao frio que as pessoas do hemisfério norte tem.

Acho que todos concordam que dias claros, quentes e ensolarados nos fazem sentir melhor, mais ativos e felizes, mais dispostos para fazer um churrasco na popa do barco com os amigos e espero que a temperatura continue mais alta para que possamos aproveitar nossa vida aqui na costa turca, que tem uma temperatura mais elevada que o interior e a regiao Norte do país, onde já nevou neste ano. Namastê 🙏🏻🇹🇷

31 de janeiro de 2023. Morando a bordo do veleiro SV Pharea em Marmaris, Turquia. 🇹🇷

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Ancorados com ventos de mais de 110 quilometros/hora

No mês de janeiro já tivemos três situações de ventos fortes, e quando temos esse tipo de previsão, que geralmente é de entrada de vento sul, sudoeste e variantes, mudamos de ancoragem, saindo da baía em frente à cidade e ancorando um pouco mais atrás, cerca de duas milhas, onde fica mais protegido.
Normalmente os ventos tem entrado com mais força do que consta na previsão e por isso, nessas situações, tomamos todas as providências para deixar o barco pronto, recolhendo o bimini, motor do bote, às vezes o bote também e checando tudo externa e internamente para não ficar nada solto.

Mesmo estando preparados é sempre um momento de tensão que se acentua quando o vento forte e a tempestade ocorrem durante a noite, pois perdemos a visibilidade do que está acontecendo no entorno. Quando ocorre durante o dia é possível acompanhar todos os movimentos e ver como estão se comportando as coisas que ficam no cockpit e no convés, como os cabos, defensas e equipamentos e parece que temos maior controle sobre o evento que está ocorrendo.

Pois bem, no dia 26 encaramos um vento, que passou dos 110 quilômetros por hora, nos movemos muito na ancoragem, de um lado para o outro, conforme as rajadas de vento que duraram muitas horas. O vento começou de tarde por volta das 5 horas e se manteve em torno de 30 knots constantes e rajadas de mais de 40, aumentando durante a noite e no dia seguinte tivemos rajadas de mais de 60 knots, diminuindo somente a tarde por volta das 2 horas.

Bem, o Renato virou a noite, ficando por um bom tempo lá fora no cockpit, acompanhando o movimento do nosso barco e dos outros barcos próximos, e na madrugada até o meio dia do dia seguinte foi uma loucura a força do vento que pegamos. Para ter uma ideia, a Escala Beaufort, que trata da força do vento, vai de 0 a 12 e o vento que tivemos foi de força 11, apenas 1 força a menos do que os ventos classificados como furacão.

Apesar de ter guardado tudo, ainda assim abriu a porta do armário e as roupas foram jogadas para fora, na geladeira cada movimento brusco da rajada dava para ouvir os produtos se movimentando, assim como nos outros armários com copos e louças… o cockpit ficou molhado com a água do mar que entrava quando as rajadas eram muito fortes e o barco adernava muito, permitindo que a água entrasse pelo costado.

O Renato ficou o tempo todo observando em alerta e o mar estava literalmente branco, com a espuma das ondas, com muito spray de água levantada pelo vento e viu também dois mini tornados descendo da montanha próxima e chegando no mar e levantando a água que subiu como um funil e sua força adernou os barcos e virou os botes, inclusive o nosso que ficou leve sem o motor, que havíamos subido para o cockpit.

Foi uma loucura, a Bella estava assustada com o barulho das rajadas e da água batendo no casco, foi realmente intenso e nestes 5 anos de Mediterrâneo, foi a primeira vez que pegamos uma situação assim. Depois durante a tarde ainda veio uma tempestade com granizo, o que foi bom para lavar o convés de toda a água salgada que havia entrado.

Eu já comentei sobre isso anteriormente, usamos aplicativos específicos de previsão de tempo, mas consultamos o guia Imray, Turkish Waters & Cyprus Pilot, versão impressa, edição de 2009 que temos no barco e acredite, novamente os alertas dos ventos mais fortes, como das outras duas situações que já passamos neste mês, estavam lá, previstas a mais de 14 anos. Isso é muito intrigante, com tantas mudanças de clima, relevo, aquecimento e tudo mais e ele continua sendo um ótimo balizador, isso é incrível.

Depois do vento e da tempestade, abriu o sol, o mar se acalmou e ninguém poderia dizer que nas 24 horas anteriores o bicho pegou por aqui. Agora só agradecer ao meu Capitão Renato, que é dedicado, incansável e que cuida da gente e da Pharea da melhor maneira possível e agora já podemos dizer: É… É verdade, já enfrentamos ventos de 60 knots! Namastê 🙏🏻🇹🇷

27 de janeiro de 2023. Morando a bordo do veleiro SV Pharea em Marmaris, Turquia. 🇹🇷

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Achados no fundo do mar 🇹🇷

Dias atrás estávamos levantando âncora, na baía em frente à cidade de Marmaris, e ouvi o Renato lá fora tendo que forçar o guincho repetidas vezes. Sai para ver o que estava acontecendo e ele disse: – Você não vai acreditar no que “fisgamos” com nossa corrente! Olhei e vi nossa corrente subindo uma enorme âncora de almirantado, daquelas que eram muito usadas antigamente em grandes embarcações. Devia ter entre 75 a 100 Kilos.

Impossível saber há quanto tempo ela estava ali, afundada, deteriorando no fundo da baía e mais instigante ainda saber quando ela foi usada, se foi perdida, se a embarcação foi naufragada numa das inúmeras guerras e conflitos, que também ao longo da história sempre estiveram presentes nesta região.

O Renato então avaliou a situação de como nos desvencilharmos dela, porém, de forma que fosse possível tirá-la desta área, que tecnicamente, é a área de ancoragem.

Com a ajuda do Andy, do veleiro Tartuga, que segurou o bote na posição necessária, o Renato envolveu a âncora com um cabo preso no cunho do convés e aos poucos eu fui acionando o guincho para a subida da corrente até que o cabo passou a ser a sustentação da âncora, e assim o Renato conseguiu ir retirando a corrente do entorno da velha âncora. Pois bem, agora ela estava pendurada com um cabo na proa, ufa!

A opção mais segura que o Renato avaliou foi jogá-la de volta ao fundo do mar, não tínhamos como levá-la em terra e assim navegamos uma milha além da área de ancoragem, isto para evitar que outro barco viesse a fisga-la novamente, fomos bem devagar, 2 knots, e chegando lá, devolvemos ao mar o que ele havia nos trazido e nos colocamos a pensar no número sem fim de coisas submersas neste mar.

A região onde é hoje a Turquia tem uma especial particularidade, a de que seu território foi habitado ininterruptamente por quase sempre, desde os primórdios da humanidade.

Muitas e muitas sangrentas batalhas aconteceram por aqui e os ataques às cidades da Costa geralmente chegavam de navios que por vezes eram afundados, naufragados é isso tudo jaz em algum lugar no fundo do mar.
Já tivemos a oportunidade de ver ruínas e remanescentes de muitas civilizações que passaram por aqui, muita coisa foi perdida mas ainda há muito o que se ver, quer nos inúmeros museus ou mesmo a céu aberto, nos centros das cidades ou em ruínas espalhadas pelas montanhas íngremes daqui.

Há também uma imensa quantidade de cidades e vilas submersas em decorrência de terremotos causados pela movimentação das placas tectônicas que acabaram por alterar o nível do mar ficando algumas cidades suscetíveis a inundação. Quando estivemos em Kekova, visitamos a cidade afundada onde é possível ver as fundações e à disposição das construções da época.

Aliás a Turquia e também a Grécia continuam a descobrir artefatos e às vezes vilas inteiras que ainda estavam guardando seus segredos, que agora passam a ser compartilhados nos inúmeros museus abertos à visitação.

Namastê 🙏🏻🇹🇷

10 de janeiro de 2023. Morando a bordo do veleiro SV Pharea em Marmaris, Turquia. 🇹🇷

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