Retornamos à charmosa Sainte Anne, ancoramos na baía, próximo ao pier público com a sensação que estávamos no caminho de volta, que já não daria mais para seguir rumo ao norte do arco do Caribe, pois, se aproximava a temporada de furacões.
O que nos manteve presos mais de dois meses em Martinique, foi a espera pelos resultados dos exames que havia começado a fazer ainda em fevereiro e o tempo foi passando e a temporada de furacões se aproximando.
Acabamos ficando especialistas em planejar e replanejar os planos. Lembro que quando chegamos queríamos subir de Grenada até o norte do arco do Caribe, mas tivemos que reformular os planos. Aqui se faz necessário ponderar que a navegação é sempre de leste para oeste, em função dos ventos frequentes que sopram no Atlântico e por isso também não iremos para as ilhas ABC (Aruba, Bonaire e Curação) este ano, pois seria difícil retornar para o arco, a rota partindo de ABC seria seguir em direção ao Panamá.
Desta forma, por enquanto o plano era ficar em Grenada e Trinidad e Tobago até novembro e depois retomar a subida do arco.
Além disso havíamos recebido alerta das agências que monitoram o clima e informaram que a temporada de furacões será mais intensa este ano, motivo pelo qual estamos cautelosos (até por que é a nossa primeira vez por aqui) em nos manter seguros, pois já vimos muitos veleiros afundados e avariados por aqui praticamente em todas as ancoragens que fizemos.
Bem o estudo de tantas possibilidades e com tantas variáveis a considerar, uma vez que se trata das forças da natureza, acabou se resumindo a uma outra questão, o resultado dos meus exames chegaram através de um telefonema, que nos informou: “Olha, infelizmente não tenho boas notícias para vocês”.
O mundo rodou por um instante e agora realmente tínhamos um problema que requeria não só decisões, mas urgência. O resultado da biópsia diagnosticou Câncer de Mama. Teria que operar? Qual era o tratamento? onde? eram questões que tínhamos que encarar e aí entrava uma série de outras questões relativas ao estilźo de vida que estávamos levando… onde deixar o barco, quais as possibilidades, quais os custos e inúmeras outras questões.
Na manhã seguinte decidimos que eu voltaria no primeiro vôo que encontrássemos e que o Renato seguiria com o barco em direção ao sul em busca de uma marina onde pudesse deixar o barco uma temporada.
Foram dias muito difíceis, estar doente, embora me sentido bem fisicamente, voltar para a terra, já que há 8 anos somos do mar… eram grandes barreiras a serem derrubadas e o medo do desconhecido era o que nos aguardava do outro lado e além dele a dúvida: voltarei? Estarei aqui novamente?

Assim, no dia 28 de abril nos despedimos ainda fragilizados e incertos no tocante aos próximos passos, tanto eu indo encarar de frente o tratamento, quanto o Renato, pelo fato de não poder me acompanhar e precisar navegar rumo ao sul para arrumar um lugar seguro para deixar a Pharea, ele foi neste momento, literalmente, “tocar o barco”. Embarquei para o Brasil, trazendo comigo a Bellinha, com o coração em mil pedaços, deixando para trás a vida que tanto amava, minha casinha itinerante e me separando, ainda que somente por alguns dias, do homem que é a minha fortaleza, meu recanto e meu encanto, o Renato!
Namastê 🙏🏻
28 de abril de 2024. Morando a bordo do veleiro SV Pharea em Martinique 🇫🇷 Caribe.
Mudamos para uma ancoragem em Trois Illêts, um fundo de baía, com águas paradas, que nos lembrou das ancoragens na Ilha da Cotia, Paraty, RJ. Tivemos noites de sono incríveis, sem acordar a noite e curtimos demais esta calmaria, que não havíamos encontrado desde que chegamos aqui. Na ancoragem 4 barcos brasileiros: o Bruno (Speranza), o Léo e a Veronica (Max), o Aires e a Carol (Naboa) e o Hamilton e a Gal (Hórus) e nossos amigos Ana e John (The Dream).
Outra coisa fantástica é que o pier de desembarque, onde deixávamos o bote, era dentro de um parque de preservação de mangue, onde víamos com frequência crianças em aulas de campo, encontros de etnias, além de ter um bosque incrível para caminhada, na sombra, o que era ótimo no calor que estava fazendo.


Visitamos uma “poterie“, que produz obras em argila, com lindas peças em exposição, visitamos museus sobre a história local, fortemente arraigada na questão da escravatura, fizemos caminhadas, piqueniques com os amigos no cair da tarde, foi muito especial o tempo que passamos juntos aqui.
Aqui, como a baía era mais calma, decidimos comprar o material para fazer a capa do bote novo. Acordávamos mais cedo, antes do vento, para baixar o bote da targa e fazer o molde com material plástico, confesso que não foi fácil, mas enfim com o molde feito, usamos uma mesa do parque para cortar o tecido e poder iniciar a costura.




Também trabalhei no dog house do Speranza, substituimos o vinil transparente e fizemos alguns reforços.
Desta ancoragem também íamos para a capital da ilha, chamada de Fort de France.
Uma cidade com um pequeno centro histórico, representado pelos antigos casarões dos proprietários das grandes plantações de cana, que ainda hoje produzem um sem número se “Rums” a partir da fermentação e destilação da cana de açúcar e que mesmo tendo se passados alguns séculos, o Caribe ainda hoje é conhecido pela produção do Rum (Foto: Fazenda de cana-de-açúcar).
Para além do centrinho a cidade se espalha pela orla e através das inúmeras montanhas que compõem a área, as vezes formando longos eixos norte/sul, com a área de serviços e comércio distribuídas ao longo das mesmas, e que trazem para si um tráfego acelerado e nervoso. Com certeza sair da paz da ancoragem, pegar um ou mais ônibus para ir a capital, estava longe de ser um bom programa.


O melhor era acordar cedo, tomar café no cockpit vendo o sol levantar, sair para uma caminhada no parque ou na pequena Trois Îllets e passar o dia na paz e tranquilidade.

E também parar na Patisserie para experimentar os lindos e saborosos doces franceses e os pães irresistíveis.
Porém, numa linda manhã veio a guarda costeira e pediu que todos mudassemos de ancoragem… assim levantamos âncora e fomos para a baía de Anse a Ane, poucas milhas ao sul de onde estávamos, onde ficamos por mais uns dias e depois seguimos um pouco mais ao sul e voltamos para nossa primeira ancoragem em Martinique: a grande baía de Sainte Anne.Namastê 🙏🏻11 de abril de 2024. Morando a bordo do veleiro SV Pharea na Martinique 🇫🇷 Caribe.



































