Coisas simples que as vezes se tornam difíceis

Precisávamos imprimir alguns documentos e fomos numa lan house, o atendente nos indicou o computador e quando o Renato ia começar a transferir os arquivos deparou-se com um teclado bem diferente, sim era o teclado usado por eles, Árabes,  e não deu outra… Precisou chamar o atendente que o ajudou durante todo o processo.
Impossível achar o ponto, o hífen, além do que, a disposição das letras segue outra ordem… Muito engraçado, algo tão corriqueiro que de repente ficou complicado de fazer sem ajuda.

O público da lan house era somente de meninos que ficavam focados na tela do computador, com fones de ouvido, jogando algum game.
Tudo pronto e impresso, agradecemos a ajuda do atendente pois sem sua cooperação ficaria difícil realizar a nossa tarefa.
Encontramos alguma dificuldade em lojas ou quando o Renato procura por algo mais específico para o barco, pois às vezes nenhum atendente fala inglês e para tudo o que não encontramos eles nos olham e dizem “demain” que em francês significa: amanhã! No comércio em geral são bem amigáveis e gostam de comercializar.

Nas feiras falam bem alto os preços, competindo pela atenção de quem passa. Sempre há novidade na feira… agora tem o fruto das amendoas in natura, melancias e melões de vários tipos. Tudo fresco e com preço super acessível. Namastê🙏🏼.

Dia 1.578 morando a bordo. 19 de julho de 2020. Monastir, Norte da África.

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Há 8 meses na Tunísia 🇹🇳, Norte da África

Quando estávamos na Europa seguíamos o estabelecido no chamado “espaço Shengen”, ou seja, trânsito livre entre os países da União Européia sendo que em cada 6 meses é possível ficar 3 meses dentro deste espaço. Aqui na Tunísia podemos ficar 3 meses e tem a facilidade de ir estendendo este prazo de estadia através da compra de selos.
Nossos primeiros 3 meses venceram em 22 de fevereiro e o Renato providenciou a compra de selos por mais 2 meses, o tempo que tínhamos contratado na Marina para passar o inverno.
Porém em março começou lockdown e ficamos aqui aguardando o avanço e os desdobramentos sobre o Corona Vírus, já que a entrada nos outros países do Mediterrâneo estava fechada.
A Tunísia encerrou o lockdown em 27 de junho e novamente precisávamos estender nosso visto, pois já havia transcorrido o tempo de validade dos mesmos. Com isto para resolver fomos surpreendidos com o convite de um casal de amigos Canadenses, Caroline e Dany, para sairmos junto com eles para zerar nosso tempo na Tunísia. Depois de três horas e meia aguardando a liberação para a saída do barco soltamos as amarras do Zebulon, um Dufour 44 con bandeira Canadense, onde eles moram a bordo. Seguimos cerca de trinta milhas, rumo à ilha italiana de Lampedusa e chegamos às águas internacionais, demos um bordo e retornamos para Kuriat, pequena ilha com um farol e um navio encalhado que compõem o visual e fica a mais ou menos 08 milhas da marina de Monastir, onde estamos. Velejamos durante todo o percurso de ida, vento entre 7 e 15 knots, com velocidade média em torno de 7 knots. Há muito tempo não velejávamos e tivemos um dia maravilhoso. O dia foi também muito especial pois comemoramos aniversário do Capitão Dany e a Caroline preparou um jantar caprichado. Pernoitamos ancorados em Kuriat e cedinho ouvi um barulho e era o Renato que acordou e foi ver o nascer do sol no cockpit o que há muito tempo não fazia, já que estamos na Marina. Levantamos, o dia estava ensolarado e o mar super limpo… Dava para acompanhar o balanço do seagrass no fundo do mar e a âncora estava visível, pois a água estava realmente transparente.
Fomos todos para a água aproveitar aquele presente da natureza para nós! Mais tarde retornamos para a Marina e demos entrada novamente e assim conseguimos zerar nosso tempo passado e iniciar a nova contagem.

Fim de semana muito bacana na companhia dos amigos super queridos! Não imaginávamos passar tanto tempo aqui na África, mas realmente foi uma surpresa maravilhosa e culturalmente muito interessante. Só a agradecer. Namastê 🙏🏻

Dia 1.568 morando a bordo. 09 de julho de 2020. Monastir, Tunísia 🇹🇳, Norte da África.

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Rotinas da vida a bordo…

Morar a bordo pressupõe assumir diversas atividades no cotidiano. Como bem disse meu sogro: um veleiro é uma “casa viva” e quem está à bordo deve suprir suas necessidades ou pagar a alguém para que as supra. No nosso caso, cada vez mais assumimos as diferentes tarefas para manter tudo em ordem. As principais áreas dessa casa viva são:
– A navegação e aí entra o conhecimento dos regimes de ventos, correntes e marés, o domínio da técnica e o planejamento da melhor rotas e planos B e C…;
– A manutenção, esta é continua, pode-se dizer diária. O Renato já conhece e sabe fazer a manutenção de praticamente tudo à bordo, lógico que isso requisita muitas horas estudando os manuais e também procurando diferentes soluções nas redes sociais;
– Manter a organização geral da embarcação, aplicando aquela máxima que os velejadores conhecem…. cada coisa em seu devido lugar, para que você possa pegá-la no escuro, se precisar;
– A alimentação, manter uma dieta equilibrada, no nosso caso, priorizando sempre o consumo de frutas e vegetais da estação, o que proporciona diferentes pratos e o conhecimento de novos sabores, segundo a culinária do local onde estamos. Aqui na Tunísia 🇹🇳 come-se muito cuscuz, muita pimenta, vegetais e frutas frescas, lanches rápidos encontrados nas comidas de rua e pães bem diferentes e deliciosos;
– E é claro a limpeza, agora que estamos na Marina com água disponível o barco é lavado dia sim e dia não, aqui sofremos a incidência dos ventos provenientes do deserto do Saara e por isso carrega uma areia vermelha que nos incomoda e deixa um aspecto feio de sujeira no convés. As armações de inox ficam muito sujas e não tem outro jeito senão estar sempre limpando. Geralmente o Renato cuida da área externa e eu da interna. Lavo as roupas no barco, exceto quando temos lençóis ou as capas dos estofados, quando então mandamos para a lavanderia. Às vezes penso sobre isso, a questão das roupas, quando morava em terra sempre usei máquina e lavanderia e de repente tantos anos depois estou aqui, lavando a nossa roupa a mão e na maior felicidade… isso demonstra para mim como não são as “coisas” que realmente importam e sim como você se sente internamente.
Bem, eu e o Renato sempre fomos muito dedicados a manter nosso barco da melhor maneira possível e como qualquer velejador, o melhor barco é o seu barco! Essa rotina diferente fazendo tantas coisas que antes não fazíamos e delegávamos para outras pessoas nos faz muito bem, nos sentimos realmente nos cuidando e cuidando de nossa casa viva e também dispendendo tempo para cuidar de nossa mascote Bella, sempre alegre e sempre alerta a qualquer barulho e a tudo o que acontece próximo do barco. Adoro essa “rotina” que é  simples e nos deixa livres para viver os dias mais intensamente. Só a agradecer. Namastê!

Dia 1542 morando a bordo. 13 de junho de 2020. Monastir, Tunísia, Norte da África.

 

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Pão quentinho “every day”!

Poucas pessoas resistem ao cheirinho de um pão quentinho. Alimento apreciado em praticamente todo o mundo e segundo historiadores, acredita-se que o pão tenha surgido há 12 mil anos, na Mesopotâmia, atual Iraque, em decorrência do cultivo de trigo.
São muitas as receitas e anos atrás cada família praticamente tinha sua própria receita e os pães eram feitos em casa. Quando criança minha mãe fazia pães de trigo e de farinha de milho e eram realmente deliciosos.
Fomos crescendo e os hábitos familiares mudaram e ficou mais fácil pegar os pães na padaria, escolhendo entre vários tipos. Depois passamos a comprar o pão nos supermercados e então foi a vez dos pães fatiados e integrais.
Quando começamos nossa viagem no Mediterrâneo, adoramos os pães da Croácia 🇭🇷, casca crocante, miolo macio e úmido… junto com um azeite, simplesmente perfeito! Em Montenegro 🇲🇪 não lembro exatamente do pão que encontrávamos lá…. mas na Grécia 🇬🇷 os pães eram deliciosos e havia muito pão tipo “pita” com formato achatado e levemente tostado; Uau… na Itália 🇮🇹 só pães deliciosos, também vários tipos e todos ótimos, o famoso pão italiano.
Agora, aqui na Tunísia 🇹🇳, onde não tínhamos nenhuma expectativa de pão gostoso, nos surpreendemos com a variedade e sabor. Acreditamos que em função da forte ligação com a França, toda área de pães, massas e doces sofreu grande influência francesa e há doces e biscoitos maravilhosos aqui.
Interessante também é ver no mercado inúmeros tipos de farinha, específicos para cada tipo de pão ou massa que quiser fazer… ainda não experimentamos todos…
Mas, pensando em como fazer esse alimento diário e de rico sabor que encontramos por aqui, e nos outros lugares que estivemos, vimos que eles tem em comum o tipo de fermento usado, denominado Levain, feito à base de farinha e água.
E aqui tivemos o prazer de reencontrar um casal francês Louis e Annick, que os conhecemos brevemente na Itália e quando estiveram em nosso barco, conversando sobre muitas coisas… o Louis nos falou que fazia pão e brioche…. (os pães italianos são bem conhecidos mas atenção, porque os melhores são os franceses), então ele passou sua receita para o Renato e o ensinou a fazer o pão usando Levain para à fermentação e ainda assando numa frigideira, o que a bordo é perfeito!
Bem, isso aconteceu há duas semanas atrás e agora estamos mais completos, não precisamos mais ir ao mercado ou a padaria pois diariamente o Renato faz nosso pão e acordar com o cheirinho de pão assando é maravilhoso!
Já fez também algumas variações para o lanche da noite inserindo alecrim e outras especiarias e ficou perfeito para aperitivo.
Agora estamos empatados, eu tenho Kefir de leite, que preciso cuidar diariamente e o Renato tem o Levain, que precisa ser trabalhado duas vezes ao dia. Mas vale muito a pena investir este tempo e poder curtir algo feito por nós mesmos. É uma dedicação que trás ótimos resultados!
Agora o Comandante, que já era o responsável pelo churrasco, fica também responsável pelo pão quentinho de cada dia, não tem como trocar de vida. Namastê 🙏🏼

1443 dias morando a bordo. 04’de junho de 2020. Monastir, Norte da África.

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A vida é cheia de bons momentos

Sentir a vida acontecendo, os anos passando e viver intensamente uma nova vida, morando a bordo do veleiro Pharea, me faz sentir muito feliz!

Ao realizarmos este sonho que o Renato idealizou, transformamos nossa vida totalmente, deixamos muitas coisas e pessoas queridas mas agora aprendemos a viver com menos, continuamos próximos das pessoas queridas através das redes sociais e temos tempo de conhecer muitos lugares por onde vamos passando e também fazer novos amigos, aumentando nossa bagagem e enriquecendo nossa percepção sobre  o mundo. Já moramos a bordo há 1.437 dias e ontem comemoramos meu aniversário, 54 anos, já tenho mais tempo vivido do que há viver… Mas sinto que iniciei uma nova jornada aos 50 anos, quando fomos morar à bordo e então me sinto uma criança ainda… 4 anos de vida nova e sei que há muito o que viver.

Aqui na marina onde estamos em Monastir, Tunísia, há um grupo de velejadores muito legal e de várias nacionalidades… americana, canadense, francesa, mexicana, alemã, theca, slovaka, holandesa, italiana….

E ontem recebi uma linda festa surpresa… Churrasco com praticamente todos presentes, o

Renato e as mulheres velejadoras organizaram tudo e eu nem desconfiei que teria um dia tão especial, recebendo o carinho e a atenção de tantos novos amigos… Foi maravilhoso…bom astral e muita música. Me senti grata, muito especial e feliz por este dia tão alegre e cheio de boas energias.

Agradeço muito ao Renato por me trazer para esta nova vida e por corresponder todo o amor que sinto por ele, aos amigos daqui, tão especiais e gentis em me proporcionar um aniversário tão feliz e a família e amigos que mesmo distantes estão sempre em nossos pensamentos. Só a agradecer. Namastê 🙏🏻

Dia 1.437 morando a bordo, 29 de maio de 2020. Monastir, Tunísia, África.

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